Batman v Superman: Dawn of Justice

Batman v Superman: Dawn of Justice ★★★★★

Bom, depois de rever cinco vezes o filme ao longo de um ano e meio, acho que tenho estofo o suficiente para falar algo mais ambicioso. A versão que revi para essa análise é a estendida. Mas de uma forma resumida, o filme é sobre a raça-humana não aceitando deus, criando o diabo e terminando órfã.

Humanidade

A primeira hora do filme é sobre o contato dos humanos com deus. Apesar de ter muito foco no Bruce Wayne, é nas subtramas e nos depoimentos televisivos que o filme se inicia. Apenas um evento bíblico poderia dar início a essa conversa mítica, então é esperto do Snyder revisitar seu clímax do Homem de Aço com um foco mais humano. Se no Homem de Aço a intenção era explorar a conduta do Superman a moda blockbuster, aqui Snyder larga dos planos aéreos e desce sua câmera para um carro, uma criança, um homem rezando.

O começo do filme é quase um estudo geopolítico. Acho que nunca no cinema de super-herói se teve tantas cenas num filme só. Isso é porque o Snyder transita entre acontecimentos simples de causa/efeito de uma maneira muito desengonçada. Apesar da fama de filmes bobos e infantis, é preciso um olhar mais atento para acompanhar os diálogos rápidos de Chris Terrio (um sub, porém tão eficiente quanto Aaron Sorkin).

Em meio a tantas peças sendo postas no tabuleiro, temos Bruce Wayne, um homem que após levantar da cama com uma acompanhante (que o Snyder nem faz questão de filmar o rosto) olha para a garrafa de bebida vazia, e Clark Kant, que leva flores para a companheira na banheira. Enquanto Wayne tem uma paleta de cores vazia, quase um breu, Kent tem a pele mais palpavelmente quente do cinema.

Ao mesmo tempo em que esse senso mais humano quanto a esse contato com a divindade da figura do Superman é dito como uma ameaça, existe nesses planos sempre grandiloquentes e renascentistas do Snyder uma preocupação evidente em mitificar essa figura tão incógnita aos nossos olhos. Pode ser apontado como um problema o fato do Snyder não encerrar essa discussão de uma forma convencional, como no preguiçoso Capitão América: Guerra Civil, mas não é esse o ponto.

O ponto não é a politicagem ou a humanização e representação das pessoas, comumente apenas vítimas do cenário catástrofe dos blockbuster. O ponto é algo mais arcaico e mitológico. Afinal, o mito é feito por seres fantásticos que representam... condições dos homens.

Homens

A segunda parte do filme é basicamente as peças centrais do filme agindo, e aí na minha opinião o Snyder brilha, porque poucos hoje eternizam os corpos como ele (Shyamalan, Paul W. S. Anderson...). E o clímax desse trajeto todo é cada vez mais claro na gloriosa cena da Martha.

Uma questão engraçada do Snyder é a maneira como ele humaniza de forma abrupta e muitas vezes grosseira (num bom sentido) o mito. Superman saí de uma cena renascentista para um diálogo com sua mãe. Bruce sonha com o apocalipse e sua morte. Aliás, parem para pensar por um segundo quantos diretores hoje teriam a coragem (ou a burrice, se você não gosta do filme) de se aventurar a escrever/filmar uma cena que represente um sentimento abstrato do super-herói mais divino de todos os tempos.

A cena em que o Superman sonha no alto da montanha com o seu pai é de um humanismo que se superficialmente analisado soa bobo, mas cumpre a função de te introduzir a ideia chave do personagem, a humanização. Aqui nessa parte você realmente tem um momento onde o Homem enquanto arquétipo, gatilho dramaturgo se consolida em seus arcos.

O Batman constrói sua arma na ambição de matar deus. Luthor, trapaceia e usa de truques para fazer deus ajoelhar perante o Homem. Em algum nível, Batman é Júlio César, ditador escolhido pelo povo, e Luthor é Loki, trapaceiro, invejoso. "O seu pecado é existir", diz Luthor, a deus. E Luthor, nessa ambição de derrotar deus ou humilha-lo, mata os homens (a cena do capitólio). Isso é historicamente canônico. O homem nessa busca de endeusamento comete genocídios.

A cena da Martha. Francamente, me entristece o quanto o público hoje apenas quer um entretenimento mais vazio (o que não tem o menor problema), mas quando algo se propõe a mitificar ou incitar, é banalizado. No início eu achava a cena cafona, mesmo gostando, mas hoje vejo e amo sem a menor vergonha. Acho que é um arco muito óbvio que críticos melhores que eu já argumentaram sobre, mas vamos lá.

A começar pela violência. É disparado um dos momentos mais violentos do cinema de super-herói, esses ícones brigando. Enquanto deus é arrastado para a morte pelo homem, o homem mostra relances de monstruosidade (o equipamento de voz estragado do Batman), e nesse processo ele se confessa, se abre, se exorciza.

É um filme que a todo tempo distancia para destrinchar as figuras do homem e do deus, mas apenas em prol da identificação dessas entidades. Batman vê que deus também tem mãe. Simples. Ele se identifica, acha redenção. Literalmente, grita com deus exigindo uma explicação. É quase um momento de reza. Quando ele consegue ver essa semelhança, fica catatônico. Independente dessas metáforas bíblicas, nos quadrinhos, Batman e Superman sempre foram a mesma pessoa.

Mitos

No final, a cobiça do homem cria o diabo. É um embate muito esperto. Snyder abusa de efeitos especiais para tornar as coisas estilizadas o suficiente para ter personalidade, mas ao mesmo tempo ser inofensivo com a catástrofe. O embate de figuras é mais importante que o realismo. Deus tenta exilar o diabo, levando-o para fora do planeta, mas não consegue. Aqui Snyder se entrega mais ao jeito moleque de fazer seus filmes. É de fato um fã brincando com seus ídolos.

Deus se sacrifica, o diabo cumpre seu papel. Arcos encerrados. Nada mais a ser dito. Superman morre no material para se consumar como uma presença "Se você procura o monumento dele, olhe ao seu redor". Olhe para o mundo, para a humanidade. O arco do Batman é dos mais básicos da escola de roteiro hollywoodiana. Começava o filme pensando e agindo de um jeito (quando o vemos pela primeira vez ele marca um criminoso), e agora pensa e age de outro (ele não marca Luthor).

O filme é isso. Não comentei diversas coisas para dar espaço a essa interpretação, como o fato do uniforme do Superman ir alternando entre preto e azul conforme o momento (morte/heroísmo). Pode ser uma ideia equivocada começar um universo com um conto tão fúnebre e definidor, mas é uma obra em si excelente.

William liked these reviews