Heat

Heat ★★★★★

Reassisti pela primeira vez a esse filme e vou deixar uns pensamentos que tive durante a experiência:

- É interessante a gradação da mudança dos espaços domésticos para os espaços públicos do filme. Começamos com o estabelecimento de cada personagem em suas vidas íntimas, espaços privados, pra depois sermos jogados nos mais diversos lugares urbanos, que faz culminar a narrativa na cena final que se encontra basicamente num não-lugar, um espaço marcado essencialmente pelo vazio, pelo não-movimento de pessoas: da casa pro aeroporto, da cidade pro mundo.

- As interações em cena num mesmo espaço entre Al Pacino e De Niro se dão em 5 momentos e representam precisamente o arco simbólico de todo o filme. De início eles se encontram mas não se veem, sentem a presença um do outro como personagens de alguma epopeia, pressentimos a anunciação de algo. Depois temos o início do jogo de gato e rato entre policiais e criminosos, onde um observa o outro: estamos no domínio do gênero aqui, do thriller policial, em que são destacados os personagens de De Niro e Pacino como pessoas que existem e vivem para aquilo. O terceiro momento é um dos pontos altos do filme, em que a conversa entre os dois protagonistas numa lanchonete aproxima dois mundos distintos, complexifica os laços e relações, imbui de emoção e compreensão uma ligação antes absolutamente impessoal. O quarto momento é também a passagem dita acima do espaço privado para o espaço público: após a aproximação, após a fidelização entre dois polos e as juras de ações, a situação colapsa, porque a Cidade e seus movimentos são maiores do que uma conversa informal, porque a posição que cada personagem ocupa os colocam invariavelmente num choque entre dois mundos que, embora extremamente parecidos, hão de batalhar por condições que estão para além de qualquer pessoa - é a explosão da ação, da violência no meio da cidade, da rua. Essas condições que estão para além levam ao quinto momento, colocam os caminhos existenciais dos dois protagonistas em uma consonância quase teleológica, onde o destino de ambos está necessariamente conectado, como uma grande narrativa mítica: são abandonadas as funções, os cargos de cada um, e entram em jogo dois homens, dois modos de existência que se imbricam, se modificam e se atravessam em meio ao Mundo.

- Na revisão percebi de maneira mais clara a preocupação do filme em lidar com as consequências domésticas e dramáticas para as pessoas que cercam os protagonistas e, principalmente, da delicada situação das mulheres. É tocante como o filme lida com essas questões de maneira transparente e sensível: na cena em que Charlene deve atrair Chris para a operação policial, após tudo já ter acontecido, apenas um gesto da personagem faz com que Chris entenda a situação, a irreversibilidade dela, e o peso esmagador da diferença entre dois universos, da massiva presença da Cidade, da Lei, do puro Espaço Urbano que se olha pela janela e que faz escapar todo o resto. A casa e as relações dela contém diversos mundos que resvalam a todo instante para todo lado - e o Mundo se revela num gesto.