Gremlins 2: The New Batch

Gremlins 2: The New Batch ★★★★

Acho interessante que já na cena inicial se estabelece a diferença deste filme em relação ao antecessor na dimensão do conflito entre o capitalista e o sábio chinês que é o proprietário do Gizmo. No primeiro Gremlins é o pai de Billy, um capitalista do tipo ideal provinciano de um inventor e pai de família que se sacrifica "pelo capital", que encontra Mr. Wing; no segundo Gremlins é o dono de uma grande corporação que, através de uma televisão, se comunica com o dono de Gizmo (e aparente também ocasiona sua morte para conseguir comprar o terreno do Mr. Wing), ou seja, é o capitalista da metrópole, da indústria e da alta tecnologia, dos arranha-céus e especulações financeiras. Essa é uma diferença fundamental para compreender a maneira como os dois filmes lidam com a fantasia em que estão inseridos, ainda mais tendo em vista um certo tipo de tendência que torna Gremlins 2 um típico filme que se diz ser um filme político: tanto na maneira como o filme tem uma autoconsciência cínica e irônica que constantemente brinca com a metalinguagem e o autodeboche, quanto na construção de uma estética do espaço que retrata esses ambientes de trabalho de uma metrópole enquanto lugares da burocracia e da tecnocracia, uma espécie de labirinto moderno cinzento e metálico que também compartilham uma tendência com filmes como Brazil.

Acho que justamente por Gremlins 2 ser um filme com plena percepção de seu contexto industrial, principalmente pela fato de ser uma sequência, ele ganha uma autoconsciência que se dá na forma de uma crítica mais direta, mais "fora" da fantasia, enxergando a fantasia com um cinismo distanciado que ri de si mesmo e que se menciona constantemente enquanto um filme que sabe que é um filme, que é uma sequência, que é uma crítica. Como um contraponto, o primeiro Gremlins, muito também por ser um conto de natal de uma cidade pequena, parece ser um filme que aceita mais a fantasia, que destrói e desestrutura a fantasia por dentro, que assume pra si uma ambiguidade perversa, que é sedutora e espantosa. Não que essa diferença torne Gremlins 2 um filme panfletário, pelo contrário: é uma escolha de abordagem e aproximação temática, que leva em conta contexto, momento, mudança, uma escolha que abre mais as possibilidade do filme pra uma espécie de profusão que corrói a própria imagem e o próprio significado, no estilo de filmes como Escape From L.A., uma liberdade autofágica que se movimenta entre o sentido e a falta de sentido, entre a criação e a metamorfose, que tem total consciência de todos os aspectos do filme enquanto filme e que se permite de cena em cena ser o que quiser da maneira que quiser. Gremlins 2 é simultaneamente a ideologia e a crítica à ideologia, ele assume pra si a narrativa, a explora totalmente, a destitui de sentido e a recria, enquanto destrói e abraça sua própria estrutura do que o define enquanto um produto mercadológico: o fato de ser uma continuação, de ser um produto que existe para explorar financeiramente (de qualquer maneira) um outro produto que veio antes - e isso o torna mais ácido e afiado, porém menos assustador e misterioso.

Edit: é interessante perceber também a dimensão de um evento traumático que desfaz a magia da fantasia, desestrutura suas fundações imaginárias, e que é indicado pela personagem da Phoebe Cates: no primeiro filme é a magia natalina que é desfeita pelo trauma da morte do pai no dia de natal; no segundo é o próprio mito fundador americano (aniversário de Lincoln) que se metamorfoseia na direção de um trauma abusivo que faz retroagir a fantasia - o mito que sustenta os Estados Unidos já está inerentemente corrompido e pervertido, a realidade ideológica tem sempre uma relação anterior com o trauma e o excesso.

vitordezan liked this review