Nightcap

Nightcap ★★★★½

É um segredo muito bem guardado: Chabrol terá sido um dos raros cineastas contemporâneos para quem a mise en scène é um absoluto, mas para quem o absoluto da mise en scène é a sua supressão diante da realidade. Essa louca ambição de fazer triunfar a arte através do apagamento do artista é uma das mais preciosas heranças da nouvelle vague, que a tomou dos grandes clássicos. Chabrol passou a maior parte de seu tempo, ao menos desde Betty - Uma Mulher Sem Passado, e talvez desde sempre, a se afastar da história que contava para se aproximar da realidade filmada. E quanto mais Chabrol fazia filmes, mais sua mise en scène se sofisticava, e mais a realidade que ele descrevia se revelava rica, profunda e nova.


O espetáculo musical saiu da televisão e se instalou na sala de estar da burguesia de tantos filmes do Chabrol, e é desse outro ponto que se estabelece, aqui, uma visão disso tudo: não mais o da aniquilação do espetáculo de bom gosto que coroa o triunfo dessa burguesia sobre a terra, mas o de uma sonata que faz ressoar, como se num ricochete permanente, a dor lancinante, o abatimento completo que acompanham esse triunfo, o castigo de se encastelar permanentemente no conforto dessa dor e o olhar fulminante de Chabrol, que deixa escapar alguma compaixão pela situação desses cativos, vítimas da sua própria classe.

Visto há 18 anos e nunca mais revisto, então fica difícil saber o quão precisa é a minha impressão atual dele. Mas o que ficou para mim desde então é que este filme - ainda que Chabrol o tenha seguido com ótimos filmes, até mesmo com um inesquecível (La demoiselle d'honneur) - é o avanço final de todo o classicismo tardio do cinema do Chabrol. O resto é recapitulação e meditação.

E uma outra coisa: o cineasta que faz La cérémonie, que faz Basic Instinct, que faz Choses secrètes, que faz Rosa la rose, fille publique, que faz S.O.B. é certamente um grande cineasta. Agora, o cineasta que faz Basic Instinct e Showgirls, que faz Rosa la rose, fille publique e Le café des Jules, que faz Choses secrètes e Les savates du bon Dieu, que faz S.O.B. e Victor Victoria, que faz La cérémonie e Merci pour le chocolat é um grande cineasta e um grande autor. Do que se conclui o seguinte: é possível ser um grande cineasta sem ser um grande autor (há grandes cineastas que não são exatamente autores instigantes - é o caso, por exemplo, do Robert Rossen, do Gordon Douglas, do Fulci, do Wilder - ou que não são grandes autores - é o caso do Losey, do Bellocchio e principalmente do Bertolucci), mas é impossível um grande autor não ser primeiramente um grande cineasta, isto quer dizer alguém com os meios de operar na afirmação contundente, axiomática, e com a disposição clara de seguir com a sua contradição, a sua refração. A reflexão do espectador que, diante de uma grande obra, amplia o raio de alcance desta se dá através desse tipo de construção e produção de sentido (a cinefilia e a crítica de cinema dos últimos 20 anos parecem incapazes até mesmo de discernir isso, que o diga de articulá-lo, seja nos "autores" que cria ou nos textos que elabora a partir das "obras" desses "autores"). O resto é isto e isto, e a compreensão de uma coisa que o Godard diz no primeiro vídeo mas que ele também comenta no segundo (e que é exatamente o que escapa à cinefilia e à crítica cinéfila que não faz outra coisa além de surfar na inflação autoral criada pelas mídias e pelo jornalismo): as coisas não mudam rapidamente.

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