Nomadland

Nomadland ★★★

O tempo todo é possível ver o trabalho de Chloe Zhao e sua equipe: se há uma coisa que "Nomadland" não consegue é naturalizar a fronteira entre a ficção e a realidade, é possível ouvir os "vai, continua!" nos momentos espontâneos entre atores e não-atores, e a obsessão com o lusco-fusco não ajuda. Frances McDormand nunca atuou tanto - não em termos de qualidade, mas de volume. Ao mesmo tempo, não me lembro da última vez em que vi a atriz rindo num filme, se é que um dia ela fez isso. E aí "Nomadland" ganha uma força incrível: quando se desapega do documental e investe num tipo de ficção rara no cinema americano. A jornada de Fern é absurda, justamente porque é jornada sem destino, não se configura num arco, numa narrativa de metas, mas num estado de espírito, brutal e imutável, onde o único objetivo é escapar da redenção. Se assisto friamente, temeroso, os dois primeiros terços do filme (excesso de filosofia e pouco cinema), o terço final me deixa chapado: o nomadismo como recusa radical, como inviabilidade da vida comum, e nisso incluem-se todos os clichês de afeto do típico filme de estrada. O retorno de Fern a sua antiga cidade, agora fantasma, é das grandes sequências do ano, e sinto que caiba num filme que percebe tarde demais que a invenção era seu caminho real. Um passo atrás em relação a "The Rider", mas com momentos de puro brilho.