Transit

Transit ★★★★

Um olho no passado e outro no presente. Uma paralaxe do espaço, mas sobretudo do tempo. Transportar o ontem para o hoje. O olhar, ainda que tímido, de classe, cor, ideologia, nacionalidade. Não o olhar discriminatório, mas o olhar da mão que se estende, como em Barbara, ou mesmo em Jericó. Trânsito em espaços e tempos daqueles que nunca repousaram sobre a paz. Repousar o rosto cansado ou triste e a alma pesada é algo que se repete aqui (repetições são chaves, e.g. os convites para almoçar), é um gesto patente. É um filme de gestos, ainda que abundem palavras. É interessante como o personagem do escritor, e a ausência dele (vez ou outra lembrei das circunstâncias da morte de Walter Benjamin, que também carregava consigo um manuscrito, o famigerado Sobre o Conceito de História), e como ele também, reflete no personagem da voz em over. Transit não se sobrecarrega de palavras, ainda que elas tenham um peso esmagador. Franz Rogowski me lembrou Joaquin Phoenix em O Mestre, aquela silhueta fina, magra, frágil (e, sim, o lábio leporino), mas que revela uma força descomunal. Georg é o personagem em trânsito, trânsito sem destino, intermediário das idas e vindas. É a cena da motocicleta: Joaquin Phoenix cruzando o deserto, o vento cortando a cara. Sem destino. Road to Nowhere.

Quem esquece mais rápido, o abandonado ou aquele que abandonou?

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