Sertânia ★★★★★

Geraldo Sarno, cronista fundamental do nordeste brasileiro, faz aqui sua obra-prima, aos 81 anos de idade. Um filme que resume toda uma obra, como se tudo que ele fez antes (ele e vários de seus colegas de geração) fosse pra chegar até aqui. Um nordestern barroco e fantasmagórico, em que o preto e branco faz a imagem esvanecer diante dos olhos, numa total reconfiguração de sentidos em relação à fotografia estourada de "Vidas Secas". É uma espécie de pós-Cinema Novo, um filme que busca na tradição da vanguarda uma vanguarda da tradição. Entre a energia dos combates sertanejos, o artifício da metalinguagem, a cosmologia geográfica dos espaços, dos tempos e dos afetos, um scope gigantesco e lindo e as faces herdeiras do passado sangrento, Sarno deixa a gente siderado. Mais ou menos como escreveu o Eduardo Valente, é o maior encontro possível entre Terence Malick (aquele que vale) e Guimarães Rosa (sem ter nada diretamente a ver com Rosa). É uma coisa. E tem Edgard Navarro de Antônio Conselheiro.

Marcelo Miranda liked this review