Brasil ★★★★★

não é possível, não é possível. cada vez que eu volto pra isso mais se mostra o filme mais belo de todos. o filme definitivo. a maneira como é dividido em duas partes, a primeira sendo didática e a segunda completamente complexa, analítica. não que não exista uma magia misteriosa na primeira. eu pelo menos demorei em torno de umas cinco vezes pra entender ela por completo. talvez mais. quando como é mostrado orson welles ao som das palavras "terra de nosso senhor", existe pela primeira vez um deslumbramento claro, uma ligação referencial óbvia, mas ao decorrer do tempo de desvela uma afirmação cada vez mais bruta, provocativa no verdadeiro sentido da palavra. no sentido de que o título BRASIL é tão dialético, tão perfeito, que volta as origens de uma raiz profunda, uma conexão com a experiência brasileira intangível, única, não decifrada/decifrada.
naquela primeira parte das jangadas e do cassino e de grande otelo e de getúlio a história faz seu papel, daí o tal didatismo, a correlação das imagens desenvolve automaticamente uma relação, o processo de uma criação cultural no seu âmago, no seu mais fundamental serviço a população. glorioso, ignorante, perfeito. perfeito mais que todos.
na segunda parte o que aparece é uma relação mais difícil. o mundo cotidiano, suas contradições e perigos perigosos. caetano abraçando gilberto. o uno ao fundo. uma aparente troca de filmagens épicas para algo corriqueiro. na verdade, muito longe disso. na verdade, o verdadeiro desvelamento do processo bruto brasileiro. a criação musical centrada no gênio escondido. que toma água no bebedouro. que pouco interage. menos que os coadjuvantes. mais em força musical seleta. ouve-se a voz de caetano, depois gilberto, depois joão. o gênio está ao fim, ao contrário de orson e os jangadeiros que se encontram no início. resta o ponto final. a despedida que assinala pra que tudo aquilo foi feito: brasil, gravado por joão gilberto em 1981.
poucas vezes gosto de admitir aos outros que sou uma pessoa religiosa, devido a falta de compreensão. mas como se abraçam aqui as perspectivas e seus significados finais, digo: deus abençoe o brasil, terra de João Gilberto.

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