Who Was Edgar Allan?

Who Was Edgar Allan? ★★★

Já na metade do filme, Michael Haneke quebra a “quarta parede”. Brechtianamente, como em Violência gratuita (Funny games, 1997), o protagonista olha diretamente para o público e convoca sua opinião. O jovem e inominado estudante de história da arte introduz a figura de Hop-Frog, o anão, enquanto a câmera se afasta gradualmente e revela a arquitetura cênica. No conto de Edgar Allan Poe, o bobo da corte resolve vingar-se do rei e de seus ministros, que o obrigavam a beber e assim o levavam à insanidade. No longa-metragem de Haneke, por sua vez, um misterioso bostoniano e sua aparente relação com o tráfico de drogas parecem enlouquecer a personagem principal. Seria esse seu objetivo?, pergunta-se.

Curiosamente chamado Edgar Allan, em homenagem ao homem da multidão, esse tipo soturno vagueia as ruas de uma Veneza historicamente não situada, entre encontros com o protagonista em um café. Em vez de definirem a temporalidade dos fatos, as marcas de época se confundem, misturando palácios, condessas e marquesas com os recorrentes assobios de Bella Ciao, hino antifascista. O enredo aponta para um whodunit, partindo da investigação de uma morte e de seu vínculo com o tráfico, mas isso não passa de um pretexto para o realizador austríaco. Desconstruindo-se o gênero ao mesmo tempo que se o constrói, como em Caché (2005), pouco importa “quem fez?”, ou a resolução de um mistério, mas apenas a desconfiança dos sentidos engendrada pelo processo.

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