Variation

Variation ★★★½

Uma sequência de tons oníricos principia Variação (Variation - Daß es Utopien gibt, weiß ich selber!, 1983): enquanto a montagem sobrepõe gradualmente tomadas aéreas entre fusões, uma voz fora de quadro versa sobre o medo infantil de anjos. Por que temer entes vinculados à ideia de proteção? A narração explica. Para aquelas crianças, a onisciência divina equivaleria à giganteza corpórea, e seres de proporções monstruosas sobrevoariam as cidades. Neste caso mensageiras do apocalipse, as criaturas celestes estabeleceriam, portanto, analogia com os aviões-foguete da Segunda Guerra. Como superar as imagens do extermínio? Como acreditar no amor após o testemunho da destruição em massa? Se a arte não pode oferecer respostas, tampouco pode calar-se.

Dentre as artes clássicas, o teatro ocupa lugar primordial no longa-metragem de Michael Haneke, produzido pela rede alemã SFB. Não só porque os protagonistas se envolvam diretamente com a quinta arte, as discussões transcendem o enredo e guiam as decisões do realizador. Já nos minutos iniciais, uma adaptação de Stella, peça de Goethe, torna-se motivo de discordância entre as personagens. Ao passo que uma prefere a versão na qual as figuras trágicas se suicidam, à outra agrada o relacionamento triplo entre Fernando, a mulher (Cecília) e a amante (Stella). Neste momento, remete-se ao subtítulo original. Traduzido livremente como “que existem utopias, disso eu sei!”, a frase evoca a utopia como preocupação central de Haneke: se entendida como um não lugar, leva à imobilidade e, logo, à morte - daí a concepção do primeiro final como mais realista -; caso funcione como um horizonte móvel, porém, ela pode nortear a vida por um prisma mais igualitário.

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