The Human Voice ★★★★

As únicas palavras que vou guardar são as que você me falou pessoalmente

Consolidada a sua equivalência a um discurso socialmente reconhecido, o termo “voz” poucas vezes diz respeito ao som emitido por bichos. No monólogo escrito por Jean Cocteau, a cachorra late, sente saudades, se esconde, mas todo o enunciado origina-se em sua dona. Por que, então, justapor o nome “voz” ao adjetivo “humana”? Paradoxalmente, talvez a estranheza causada por esse complemento aponte para o que há de não humano em toda troca comunicacional. Segundo a epígrafe assinada por Cocteau, a mediação tecnológica do telefone, “por vezes mais perigoso que o revólver”, “extrai nossas forças e nada nos dá em troca”. Um jogo de aproximações e afastamentos se engendra, nesse texto teatral, a partir da cacofonia e das constantes interrupções na fala.

As muitas adaptações cinematográficas, por sua vez, privilegiavam a literalidade da dramaturgia e serviam de palco para talentosas atrizes como Ingrid Bergman e Anna Magnani. No caso desta, é verdade, para além de sua entrega aos sentimentos mobilizados pela obra, a direção de Roberto Rossellini reforçava imageticamente uma narrativa de proximidades e distâncias: após uma rotação revelar consistir a mirada anterior em um reflexo - tal como o telefone duplica o som, o espelho o faz com a imagem -, as longas sequências seguintes principiam em enquadramentos fechados para gradualmente abrirem o campo. Somam-se a isso os ruídos metálicos que contestam a clareza da transmissão sonora - a “linha” telefônica, jamais reta, se entrecorta por rupturas -, mas o texto permanece, quando não idêntico à peça, ao menos facilmente reconhecível. Neste sentido, não deixa de surpreender a engenhosa leitura de Pedro Almodóvar em A voz humana (The human voice, 2020), seu primeiro filme em língua inglesa.

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