The Cannibal Club

The Cannibal Club ★★★★½

Óculos escuros no rosto, aperol spritz na mão e biquíni no corpo: Gilda deita-se sobre uma espreguiçadeira enquanto troca olhares com o caseiro Lucimar. Mãos distantes cortam churrasco, e o flerte continua. O título, em crédito anterior, estabelece uma inicial estranheza. O clube dos canibais, anunciam letras vermelho-sangue. Repentinamente, aquele prato não mais parece tão apetitoso. A justificativa encontraria um apressado espectador na mera referência às práticas antropofágicas. Afinal, o filme parece bem explícito ao representar uma elite cuja opulência se sustenta diretamente na exploração dos marginalizados. A “população de bem”, o belicismo, o apelo à privatização, os estrangeirismos tanto na língua (rendez-vous) quanto na cultura (o tenor italiano), o ode aos países “de primeiro mundo”, a hierarquia patriarcal, a meritocracia, e até mesmo uma perdurante fase anal, tudo está ali.

Pensar nesses termos, contudo, equivaleria a aprisionar o cinema na sua função comunicativa. Longe disso, na verdade, Guto Parente desloca gêneros e significados. A base por trás desse argumento passa obrigatoriamente por uma questão de impureza. Sim, a Sétima Arte toma de empréstimo da literatura elementos narrativos como enredo, personagens e diálogos. Parente chega mesmo a exacerbar essa herança - seja por uma aparente simplicidade do roteiro, seja pela redundância do paralelo entre sujeição e canibalismo. Justamente esse exagero, no entanto, leva o texto ao seu ponto de esgotamento e revela, assim, algo quiçá esquecido pelo olhar fugaz: o cinema é sobretudo audiovisual.

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