Still Life ★★★★

Cinema no gerúndio (1)

Antes mesmo da primeira imagem, o som da embarcação mistura-se com o das ondas. Em busca da vida, título brasileiro para o quinto longa-metragem de Jia Zhangke, bem traduz a estética do fluxo (2) inerente à obra vencedora do Leão de Ouro no Festival de Veneza de 2006. A soma de preposição (“em”) com verbo substantivado (“busca”) funciona como uma espécie de gerúndio, privilegiando o processo - ou seja, a busca - em detrimento do resultado. Homens fumando, jogando cartas, manuseando o celular, lendo mãos e disputando quedas de braço, todos capturados por um foco oscilante, sem medo de perder e recuperar as personagens: às lentes de Zhangke, a barca rumo a Fengjie interessa menos como meio de transporte, e mais segundo a acepção da palavra “meio” que a entende, literalmente, enquanto lugar intermediário ou tempo de espera. No filme, esta reserva final de ócio antecede à dura rotina de trabalho na construção da Hidrelétrica das Três Gargantas.

Sabe-se, logo, que os protagonistas estão buscando - ou “em busca de” - algo, mas o quê? Em sua apreciação sobre o cineasta iraniano Abbas Kiarostami, a crítica britânica Laura Mulvey (3) atribui a certo “princípio de incerteza” a idiossincrasia do diretor. De outra maneira, suas imagens, ainda que reconhecidas, preservam uma desidentificação ou um afastamento do sentido imediato. Consideração análoga encontra-se em livro do belgo-brasileiro Jean-Claude Bernardet (4), ao constatar na subinformação e na distensão das ações algumas das estratégias adotadas para defender a incompletude - posição estética e política contra o esgotamento totalitarista da interpretação. Ora, em Em busca da vida, inicialmente se percebe apenas que Han procura alguém. Depois se evidencia, já passados mais de vinte minutos, tratar-se da ex-esposa. E, por fim, o protagonismo migra subitamente para Shen, uma mulher também “em busca”.

Talvez se possa elucubrar aqui sobre o “socialismo de mercado” chinês e as suas consequências nas relações interpessoais - inclusive conjugais. Nesta leitura, as personagens buscariam o amor, mas descobririam tão somente contratos: Han comprou Missy por três mil yuans, e Bin abandonou Shen por uma oportunidade de emprego. Caso se siga essa linha interpretativa, porém, lida-se com o perigo de o sociologismo prevalecer sobre a matéria cinematográfica - isto é, imagem e som. Se existe uma resistência ao capitalismo tardio, e isso é certo, ela não se localiza na ambientação histórica de um projeto modernizador em desajuste com as contradições locais, mas sobretudo na forma audiovisual e nas sensações por ela suscitadas. Como mero exemplo, para respeitar tanto os limites do texto quanto a abertura da obra, pode-se mencionar a sua divisão em capítulos.

“Cigarros”, “bebida”, “chá” e “toffee”: ricos em sugestões gustativas e olfatórias, os quatro intertítulos forjam uma comunidade a partir dos sentidos - sejam os cigarros que constantemente invadem e ofuscam o plano; seja a bebida que o Velho Ma recusa para evitar a aproximação do ex-cunhado; seja o chá que desperta em Shen a reminiscência de uma relação passada; ou mesmo a “bala do coelho branco” que Han rejeita quando acompanhada de um convite para a agressão - esta motivada pelo dinheiro -, mas aceita quando compartilhada com uma pessoa querida. Em comum, o ato de fumar um cigarro, preparar um chá ou degustar um caramelo demanda um hiato, um tempo não previsto pela lógica da produção - nem mesmo por aquela da indústria cinematográfica. Igualmente interrompe o trabalho a ebriedade decorrente do álcool.

Resgatando a análise do filósofo francês Jacques Rancière sobre o cineasta português Pedro Costa (5), tais intervalos engendrados por uma narrativa de temporalidades heterogêneas - entrecortada por pausas e retomadas - possibilitam nada menos do que a própria subjetivação. Nunca presas à insígnia de operários, as personagens de Em busca da vida encenam a banalidade do cotidiano, partilham as mais simples experiências - investigadas pela câmera desde a sequência inicial até a final, com Han e seus colegas comendo, bebendo e fumando juntos - e constituem sujeitos múltiplos. Em uma China para além das aparências impressas nos yuans, Jia Zhangke despreza a imobilidade do particípio, preferindo sempre a processualidade do gerúndio. Convida, assim, o espectador, tal qual as figuras inscritas em tela, a equilibrar-se entre uma imagem e outra, entre um som e outro, mas sem com isso eliminar o risco da queda - ou relegar a arte à condição de seu objeto.

(1) Texto publicado na revista Rosebud, edição de março/2021.

(2) Cf. VIEIRA Jr, E. Marcas de um realismo sensório no cinema contemporâneo. Tese de Doutorado (Orientador: Denilson Lopes). ECO - Programa de Pós-graduação em Comunicação da UFRJ, 2012.

(3) Apud ERFANI, F. Iranian Cinema and Philosophy: Shooting Truth, New York: Palgrave, 2012, p. 6.

(4) BERNARDET, J-C. Caminhos de Kiarostami. São Paulo: Companhia das Letras, 2004, p. 57-62.

(5) RANCIÈRE, J. O Tempo da Emancipação já passou?, In: SILVA, R. O Tempo da Emancipação. Lisboa: Calouste Gubelkian, 2011. p. 94

Luiz liked these reviews