Lemmings, Part 1 – Arcadia

Lemmings, Part 1 – Arcadia ★★★★

A consciência da própria finitude diferencia o humano dos demais animais, dizem estudos antropológicos. Mais adiante, a possibilidade de antecipar esse inescapável destino estabelece ainda outra distinção. Por muito tempo, é verdade, a falsa observação de um fenômeno estendia a prerrogativa do suicídio à espécie dos lêmingues, pequenos roedores que perecem em bando durante as migrações. De fato, não a vontade individual, mas circunstâncias acidentais provocavam tais mortes coletivas: dissociadas, portanto, do mal-estar vivenciado pelas personagens de Lêmingues (Lemminge, 1979), dupla de filmes dirigidos por Michael Haneke para a televisão austríaca.

A primeira parte, Arcádia (Arkadien, 1979), título em referência à região idílica da mitologia grega, acompanha um grupo de jovens no processo de descoberta da vida - ou da sexualidade -, mas também da morte - ou das angústias de uma geração nascida no pós-guerra. Nesta lógica, embora mais velhos - já adolescentes - e temporalmente sucessores - em 1959 -, eles prognosticam uma preocupação de A fita branca (Das weiße Band, 2009): qual seja, como romper com um ciclo de violência e policiamento? Um dos protagonistas, Fritz Napravnik não se sente confortável na própria casa, com um pai agressivo que sequer o deixa receber a visita de amigos. Mais do que psicológicas, no caso de Sigurd Leuwen, as consequências da guerra se manifestam fisicamente, com um pai amputado e uma mãe tetraplégica. Ao passo que o primeiro perpetua a lógica da dominação envolvendo-se sexualmente com a mulher do professor de piano, que o tinha como um de seus alunos preferidos, o segundo violenta Anna, enfermeira da mãe, tanto indireta - masturba-se enquanto ela troca de roupas - quanto diretamente - confere-lhe um golpe de jiu-jitsu.

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