Hard Paint

Hard Paint ★★★★½

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Em Tinta Bruta, laureado com o Troféu Redentor de melhor longa de ficção, Márcio Reolon e Filipe Matzembacher abordam tanto estética quanto tematicamente o papel das novas tecnologias. Logo na primeira sequência, uma imagem pixelada captura um jovem corpo. Quando digo capturar, refiro-me a ambos os sentidos da palavra: tanto filmar quanto reter como presa. À medida que o plano se afasta, descobrimos que se trata de uma tela de computador. Sob o codinome GarotoNeon, Pedro performa para milhares de espectadores. A imbricação entre imagem e violência, já sugerida pelo termo captura, encontra então respaldo. Sob o denominador comum do dinheiro, até mesmo sexualidade converte-se em mercadoria. Podemos perceber, com isso, uma atualidade no pensamento da Escola de Frankfurt. No trecho comentado há pouco, Olgária Matos chamava a atenção para um “procedimento de indiferenciação entre objetos e indivíduos” presente nos aparelhos televisores. Não seria o caso de pensarmos o mesmo a respeito da internet?

Para autores como Francisco Rüdiger, afinal, a cibercultura nada mais é que “um cenário avançado ou high-tech da cultura de massas e da indústria cultural”. Ainda que novas possibilidades de comunicação se apresentem, não chegamos à ciberdemocracia idealizada por Pierre Lévy. Em vez da omnivisão, “uma simetria que permite que cada um veja tudo a partir de qualquer parte”, Tinta Bruta insere o público no incômodo lugar de voyeur. Em determinado momento, Pedro marca um encontro com um de seus espectadores. Enquanto tece comentários por telefone, o homem opta pelo anonimato. Esconde-se nas sombras da noite, como a plateia no escuro da sala de exibição. Pensar essa imagem é pensar o próprio lugar do cinema: como superar os pressupostos tecnológicos rumo a uma emancipação?"

* Parte do texto apresentado em 23 de novembro de 2018 na mesa O cinema brasileiro e as novas tecnologias do Fórum de Audiovisual – Cinema Nacional em Discussão, organizado pelo CCJF.

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