Ghost Town Anthology

Ghost Town Anthology ★★★½

As gélidas paisagens crescem em gelidez. O negativo dezesseis milímetros denuncia sua textura, e soprantes correntes invadem a trilha sonora. Diante de um elemento urbano, contudo, cessa o horizonte de pura branquidão. Cada qual em seu extremo, um homem e uma mulher fitam-se mutuamente. Atrás deles, gigantescas retroescavadeiras entrecortam Irénée-les-Neiges, vilarejo cujo próprio nome espelha total alvura. “Isso é impressionante”: uma única linha de diálogo sobrepõe-se à ambiência ventosa. No momento seguinte, a dupla senta-se dentro da escavadora, em sentido contrário ao do plano médio. Gisèle, mãe do recém-falecido Simon, anuncia-se como tal. James, responsável pela obra, sinaliza desconhecê-lo. “Simon Dubé”, enfatiza ela, em desesperada busca por reconhecimento. A ignorância persiste. “Você acredita em algo maior que nós, James?”, desvia o assunto. “Não tenho muito tempo para pensar nisso”, e a discussão se encerra.

A descrita sequência distingue posturas opostas. De um lado, James, provavelmente residente em uma grande cidade, organiza tempo e vida em torno do trabalho. Do outro, porém, Gisèle incorpora metonimicamente uma vila tão minúscula quanto coesa. Ao todo, 215 pessoas habitam Irénée-les-Neiges, divididas em 186 casas. Ou melhor, 185, já que uma misteriosa ocorrência implicou o abandono do imóvel limítrofe. Quinze quilômetros separam a região do hotel mais próximo, e há muito não se experienciava a morte. Por isso Gisèle se surpreende. Se James não ouviu falar de Simon, certamente se trata de um forasteiro. Em uma comunidade tão pequena, afinal, nenhum rosto causa estranheza. Especialmente para Simone Smallwood, a beberrona prefeita que faz as vezes de psicóloga e líder espiritual. “Para um castelo de cartas cair, você só precisa retirar uma”: assim é o seu discurso no velório.

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