Another Round

Another Round ★★★½

No final dos anos 1990, quando a câmera digital ainda passava longe dos padrões estilísticos da indústria cinematográfica, suas potencialidades se desvelavam nas mãos de um jovem dinamarquês. Com uma filmadora caseira na mão e uma premissa na cabeça, Thomas Vinterberg adentrou os aposentos da classe alta escandinava para expor sua hipocrisia, transformando em linguagem as “limitações” tecnológicas. Em vez de apesar de, justamente por causa dos ruídos em forma de pixel e da instabilidade de suas imagens, Festa de família (Festen, 1998) aproximou o distante e distanciou o próximo, em um jogo dialético. Aos poucos, porém, o radicalismo experimental do realizador deu lugar a lampejos de autoria, e suas produções posteriores oscilaram entre gêneros consolidados - como romance histórico (Longe deste insensato mundo) e ação (Kursk - A última missão). É neste momento que emerge Druk - Mais uma rodada (Druk, 2020).

Filiando-se de imediato ao pensamento de Søren Kierkegaard, com uma citação antecedendo ao primeiro plano, Druk - como toda a carreira de Vinterberg - autoriza também outras leituras, igualmente filosóficas. A arte, é importante lembrar, não obedece à vontade de seu criador e tampouco a qualquer tentativa de captura por um predicado único. Neste sentido, preservando a abertura da obra, um paralelo com O nascimento da tragédia, de Friedrich Nietzsche, talvez ajude a formular questões pertinentes. Em especial, a ideia do necessário encontro entre impulsos apolíneos e dionisíacos guarda evidências não só narrativas, nas personagens, mas sobretudo estéticas, nas escolhas do diretor dinamarquês. Se Dionísio ou Baco, o deus do vinho, remete à experiência da desmedida, da ruptura, Apolo, o deus da luz, diz respeito à razão e ao controle. Caso não conjugadas as duas forças, esta última pode levar à ausência de movimento, estado em que se descobre o protagonista.

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