Ammonite

Ammonite ★★★½

O singular título Ammonite (2020), inédito no Brasil, dificilmente esclarece seu significado até quando traduzido para o português, amonite. Uma rápida consulta ao dicionário revela tratar-se de um molusco extinto ainda no período Cretáceo, dizimado pelo mesmo processo que vitimou os dinossauros. Dessas criaturas aquáticas restam apenas fósseis, escavados por Mary Anning (Kate Winslet) no novo filme de Francis Lee (O Reino de Deus). O trabalho da paleontóloga consiste em limpar as pedras coletadas na praia para delas extrair documentos históricos. Na impureza da superfície descobrir, tal qual um ourives, pequenos, porém valiosos, momentos purificadores: é assim que o filósofo francês Alain Badiou entende as operações cinematográficas. Tais “graças do visível”, sempre intervalares, transparecem nos minuciosos gestos de Mary e Charlotte (Saoirse Ronan), corpos desafiantes à Inglaterra vitoriana - situação espaçotemporal da narrativa.

Anterior a qualquer interrupção, uma ordem social se apresenta na dinâmica entre Roderick Murchison (James McArdle) e sua esposa, Charlotte, a quem o nobre homem veta escolhas básicas como a do próprio jantar. Enquanto os dois interagem em um restaurante sofisticado - ou melhor, somente ele, já que a mulher sequer pode “fazer barulho” -, Mary cozinha ovos com sua mãe. Removida a casca, o embrião morto por ela contido antecipa visualmente o primeiro desajuste. Charlotte não consegue cumprir o esperado papel de mãe, tendo sofrido um ou mais abortos espontâneos. Tampouco se adequa à função de cuidadora do lar, conforme mostram cenas posteriores em que falha no simples preparo de alimentos. Mary, por sua vez, se consolida como uma renomada cientista, despertando até do sexista Roderick o desejo de tornar-se pupilo. Nesta interação, as descobertas do homem bem resumem a sua pequenez: ele nada mais encontra que fezes fossilizadas.

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