24 Realities per Second

24 Realities per Second ★★★½

Tal qual os etnólogos, os documentaristas frequentemente vão “a campo” com uma hipótese a ser corroborada ou refutada durante as filmagens. Eva Testor e Nina Kusturica, ex-alunas da Filmakademie Wien, onde Michael Haneke leciona, propuseram-se a acompanhar o cineasta por um período de dois anos e meio - compreendido entre os longas-metragens O tempo do lobo (Le temps du loup, 2003) e Caché (2005) - para investigar um pressuposto básico: seus filmes contam 24 verdades por segundo - ou, no original alemão, 24 Wirklichkeiten in der Sekunde. Ao longo do processo, o argumento da dupla parece diluir-se, mas curiosamente ela não se desfaz do título preconcebido. Em vez disso, insere, desde o início, um importante contraponto: segundo o próprio protagonista, suas películas contam 24 mentiras por segundo, mas sempre a serviço de uma verdade, isto é, de uma verdade cinematográfica.

Nessa lógica, o média-metragem de Testor e Kusturica se desenvolve como frustradas tentativas de dar sentido à obra de Haneke. Em um primeiro âmbito, a performance jornalística de um saber absoluto - objeto de crítica diegética em Caché - tenta organizar um discurso a respeito do realizador e de seu cinema. Na première de O tempo do lobo em Cannes, Haneke antecipa qualquer pergunta com “não me peça para contar a história” e jura não se lembrar das motivações por trás do roteiro. Após montado o filme, considera seu trabalho pronto, mas as mídias insistem em inquiri-lo na busca por significados. Tal consideração encaminha uma segunda frustração, qual seja, a do público. Constantemente se tenta conformar o cineasta a uma visão pessimista de mundo, algo por ele rejeitado a partir de pressupostos nietzscheanos - Haneke, vale lembrar, estudou Filosofia na Universidade de Viena. Indignada, muitas vezes a plateia deixa as sessões com manifestações de desagrado - fenômeno chamado por Thomas Elsaesser de “irrupções”. Na apresentação de O tempo do lobo, por exemplo, o diretor ironicamente deseja uma projeção “tecnicamente boa, mas mentalmente irritante”, e os espectadores não se furtam a tornar pública essa irritação, como bem mostra o documentário.

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Luiz liked this review