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Em agosto de 2021, conforme a Revista Iconoclasta ganhava forma, uma casualidade nos remetia a Patricio Guzmán (1941–), realizador chileno que, em sua recém-concluída trilogia sobre a memória ditatorial do país andino, implica o espectador em um projeto de “escavação”, em imagens que não cessam de “arder”, em uma relação com o passado não só constativa, mas principalmente modificadora – à luz do tempo presente. A Iconoclasta nascia ao mesmo tempo que Guzmán comemorava 80 anos; a essa dupla celebração, se juntam duas outras efemérides. Por um lado, o filme inaugural da mencionada tríade completa dez anos desde o seu lançamento no circuito exibidor. Por outro, também há uma década, a violência da repressão urgia ao primeiro e único longa-metragem da paraguaia Renate Costa (1981–2020), falecida em 2020, aos 39 anos, após uma brava luta contra o câncer.

A emergência, nos últimos anos, de um conjunto de documentários sobre essa experiência comum às antigas colônias, narrados em primeira pessoa, mas afastados de uma visão solipsista – privilegiando uma “tessitura do coletivo” –, talvez responda à inquietação que move o chileno desde o início de sua carreira. Munidos apenas de uma câmera e de perguntas incômodas, Guzmán, Costa e outros cineastas latino-americanos ensejam, em suas obras, para além da reelaboração dos traumas de seus respectivos países, um combate ativo e imanente às políticas de esquecimento.

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