Possession ★★★★

Na paranoia do relacionamento, o jogo de poder onde todas as partes expressam suas perversidades na dor física da culpa, no contato mediado apenas pela violência, nos monstros extradimensionais que obedecem às demandas da posse em troca do corpo alheio. A encenação desestabilizada, toda baseada na câmera flutuando ágil em volta da gritaria dos personagens, traz essa atmosfera de realidade prestes a entrar em colapso através das coisas mais triviais. Isabelle Adjani, convulsionando em cena diante da apatia abandonada dessa Berlim de 1981, se aproximando de Deus através da dor. Toda a verborragia e as metáforas didáticas relacionando a divisão do muro e o apocalipse iminente não poderiam ser mais delírio de grandeza de alguém tão puto com a separação que a transformou em aniquilação do mundo, mas com essa megalomania de Zulawski vem também o talento de transformar uma briga de divórcio em quase um ritual de conjurar deuses, como Os Filhos do Medo de Cronenberg que herdam a destruição deixada pelo casamento. Foram as mentiras que nos trouxeram até aqui, e agora os quebrados só podem viver como duplicatas, como sombras higienizadas do que já foram.