Miami Vice ★★★★★

This review may contain spoilers. I can handle the truth.

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“ - Lembre-se: tempo é sorte.
- Nossa sorte se esgotou.”

Como narrar a envergadura dos corpos e seus encontros num presente de inundação informacional, de dados e impessoalidades, num cinema como o de Michael Mann? Cineasta da fé no processo e no ritual, em seus filmes o que existe para manter a mente em curso é o dever, e em Miami Vice o amor, que sempre fora combatido tragicamente pelo trabalho, se depara com a impossibilidade do acaso durar. A eficiência extrema de Tubbs e Crockett colocada à prova num caso a escalonar vertiginosamente, diante de máscaras a serem vestidas e mundos além-jurisdição se tornarem regra - e a trama de duplicidade é precisa para revelar novas relações desafiadoras, e propensa ao romantismo de suas fugas. Do momento que a câmera sai da boate e os detetives e sua equipe descobrem uma operação federal em curso, a câmera de Mann descobre o céu ruidoso do digital, as cores dessaturadas da desapaixonante Miami, e as relações passam a tentar desesperadas se manter a cada ligação com novas informações. As casas pós-modernas da arquitetura tão cara a Mann aqui soam menos imponentes, mais vazias, mais triviais. Parecem que foram drenadas de contexto e banalizadas, não mais a expressar algum traço de personalidade de algum personagem, e sim para ser mais um detalhe daquele mundo acumulado no qual fomos atirados sem ilusões de que alguém irá o controlar.

Enquanto em Fogo contra Fogo, Caçador de Assassino e Profissão: Ladrão cabia aos protagonistas a jornada de repensar seus ideais de eficiência e praticidade no trabalho diante da presença inoportuna do amor e da fuga, em Miami Vice a jornada romântica recai a uma coadjuvante. Isabella surge com extremo rigor nos negócios e pensa num futuro diferente ao conhecer Sonny, e os corpos que Mann filma falam com força nesses encontros de dança e bebidas em noites de Havana. A partir daí, o presente da eficiência está posto em dúvida. E mesmo que Sonny também se apaixone, nunca o filme articula um arco muito profundo de dúvida na cabeça dele, talvez até pela atuação distante de Colin Farrell; bastam as palavras de confiança de Rico para que ele ressalte seu lado da lei.

É como se a exigência do século XXI na força policial fosse uma máquina arrasadora de violência eficaz, onde não existe o tempo para dúvida, para o respiro. Rico passa por todo seu arco de provação com profissionalismo inabalável, mesmo quando o amor atravessa radicalmente seu dever. Talvez por compartilhar com Trudy a polícia sua fuga seja menos charmosa que Sonny e Isabella em sua catástrofe predestinada à despedida - e o barco para Cuba só tinha espaço para um passageiro.

Com o indivíduo autônomo sacrificado diante da imensidão dos poderes, resta às pessoas os seus deveres modestos, sem chances de atingir traficantes magnatas, ou controlar o ego dos criminosos menos relevantes. Novamente é através da vaidade que o criminoso é derrotado, pela desconfiança na eficiência como Yero mesmo afirma. Nenhuma dessas relações de trabalho perdura na memória, e o que existe são corpos juntos na intimidade do banho, ou na cama, em Miami ou em Cuba. O digital aqui é aclamado pela selvageria realista na qual o mundo parece prestes a se dissolver nos ruídos do céu e das balas, mas a intimidade que a câmera alcança nas cenas amorosas entre os dois casais em questão são pra mim o melhor exemplo dessa pictoriedade do retrato.

Que o trabalho vença o amor no final é natural já que o tempo presente é algo que só o dever sabe lidar. Ao amor resta a sorte - e Mann, em seu filme mais romântico e mais caótico, termina Miami Vice com uma cena que mostra que acredita sim que essa sorte exista.

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