Céline and Julie Go Boating

Céline and Julie Go Boating ★★★★

O perfil dos filmes dos anos 1970 corresponde a dois tipos de estruturas sendo praticadas: a dispersão e o espaço achatado. Rameau’s Nephew (Michael Snow, 1971-1974), Quando os homens são homens (McCabe & Mrs. Miller, Robert Altman, 1971), Céline e Julie vão de barco (Céline et Julie vont en bateau: Phantom Ladies Over Paris, Jacques Rivette, 1974), Cuidado com a puta sagrada (Warnung vor einer heiligen Nutte, Rainer Werner Fassbinder, 1971) são filmes que acreditam implicitamente na ideia da não-solidez, de que tudo é uma massa de partículas de energia, e o alvo, estruturalmente, é um espaço fluido condizente com o conteúdo pulverizado e a ideia de preservar o frescor e a energia de um mundo real no interior do quadro do filme. Inconclusividade é uma grande qualidade nos anos 1970: jamais forneça toda a imagem, jamais dê a última palavra. Uma estrutura e uma disposição intelectual distintamente diferente – usada em filmes tão distintos quanto O império dos sentidos (Ai no korīda, Nagisa Ōshima, 1975-1976), O machão (Katzelmacher, Rainer Werner Fassbinder, 1969), (nostalgia) (Hapax Legomena I: (nostalgia), 1971, o filme de Hollis Frampton em que uma série de fotos horríveis é mostrada e destruída numa chapa quente) e os diversos curtas-metragens de escultores e pintores minimalistas – deverá apresentar um palco raso com a imagem ritualizada e pouco habitada emoldurada para as bordas do quadro. Diante de uma câmera razoavelmente próxima, o conteúdo formal-abstrato-intelectualizado avança em ângulos retos para a câmera e geralmente denota um cineasta que encurralou intelectualmente o material. Em ambos os casos, a estratégia frequente é delimitar um evento surpreendentemente insignificante: um não-violonista vai roçando um violino no filme de Richard Serra; a descontraída galhofa a Gordo e Magro no começo de Céline e Julie... de Rivette conta com uma pataqueira encantadora perseguindo outra por toda Paris para devolver um livro deixado em um banco de parque; Rameau’s Nephew cria sistemas linguísticos/fílmicos utilizando tipos vanguardistas de aspecto levemente cômico; e em O machão de Fassbinder, dois indolentes fofocam em direção à câmera que se desloca para trás – uma imagem surpreendentemente bonita confinando conversas frívolas e absurdas. Cada filme capta o fascínio atual por manter as coisas um pouco amadoras, como se isso estabelecesse uma ligação automática com a ironia e inteligência. Em todos os filmes supracitados, grandeza e pequenez são misturadas em visões céticas que significativamente são contrárias a carreiras heroicas.

[...] A ausência do grande manifesto (como há em Cidadão Kane [Citizen Kane, Orson Welles, 1941] ou A aventura [L’avventura, Michelangelo Antonioni, 1960]) é central no filme disperso dos anos 1970. É uma filmagem profundamente rítmica, com muitas observações em minúsculas, um movimento brusco e áspero em Caminhos perigosos (Mean Streets, Martin Scorsese, 1973), e um ritmo de canção em Quando os homens são homens de Altman, com sua acumulação de ideias sobre a vida na fronteira, começando com o conflito indivíduo-contra-a-corporação, o amor aturdido de um romântico audacioso por alguém prático e pé no chão etc. etc. O que é colhido da personagem vagarosa e balbuciante de McCabe, com o seu chapéu-coco e longo sobretudo, é uma meia-sentença (“tenho poesia em mim – não vou deixá-la de lado”), uma olhadela suspeita e obstinada. Centrar-se em uma pessoa ou um evento não está em jogo. Céline e Julie vão de barco é um novo organismo, a atomização de uma personagem, um evento, um espaço, como se todos os seus pequenos espaços tivessem sido dissolvidos para permitir que o ar se movesse entre as partes ínfimas. Um pouco como uma aquarela de Cézanne, em que mais da metade do evento é elidido para permitir que a energia se mova por dentro e por fora das vagas notações da paisagem, o duo inconsequente de Rivette, neste musical sem música, não é passível de definição. Cada protagonista acumula ações recatadas e narcisistas. Elas aparecem do nada, sem ocupações passadas ou traços característicos: num instante Céline é uma bibliotecária sóbria, no outro uma mágica de palco, e subitamente uma extrovertida fantástica. Quem são aquelas pessoas no grande estabelecimento gótico? Uma corrente de ar circunda cada porção de informação relacionada aos dois mistérios; as coisas são deliberadamente deixadas sem circunscrição.

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Manny Farber e Patricia Patterson