The Boy Who Killed My Parents

The Boy Who Killed My Parents

No tempo das fake news, a verdade é limitada pelo excesso de “versões da história”.

Há muito se perdeu o interesse pela verdade. Na era em que cada um sente-se à vontade para bravejar sobre “fatos”, e no tempo em que qualquer parecer encontra ouvidos disponíveis, ergueu-se a crença de que a verdade é questão de opinião, e de que todas as opiniões podem ser equiparadas.

Se o terraplanismo é o emblema desse fenômeno, o projeto ‘A Menina/O Menino’ é o terraplanismo dos filmes de true crime. A obra, longe de aproximar o espectador da verdade, fomenta discussões que levam à ignorância. É que as versões antagônicas, meramente equiparadas, não extraem do contraditório o direito à lucidez, pois a dialética aqui é aquela do grupo de WhatsApp: o tiozão vomita uma opinião, o sobrinho adolescente regurgita qual é a sua, ninguém aprende nada, e pronto e acabou.

Ao basear-se apenas no que Suzanne e Daniel têm a dizer, o filme torna-se incapaz de esclarecer ou nutrir aquilo que ele narra. O diretor Maurício Eça, ao esconder-se de seu papel de cineasta, ao não propor uma sensibilidade, ao julgar-se “imparcial”, ao jogar a batata para o público, conduz o espectador à escuridão, a uma mera teoria da conspiração sobre quem ali tem mais culpa — como se não houvesse provas, promotores e testemunhas que aproximariam o filme da verdade.

Não que o cinema possa ou deva revelar a verdade, mas o cinema que não instiga, ou que não conduz a um plano superior, leva ao que é inferior e ao que se revela alienante. Eça, quando baseia seu trabalho nos depoimentos corrompidos, nega a elucidação e aposta na supervalorização do argumento do indivíduo, conduta também sintomática à era do terraplanismo.

É como se o filme fosse à CPI, e como se o que saísse da boca das partes tivesse valor porque reflete a "liberdade do indivíduo", quando aquilo está conduzindo à confusão da verdade. Ao construir-se a partir de quem fala de modo comprometido, ao negar a totalidade e ao repartir a história, o filme legitima essa sociedade dividida, polarizada, que valoriza a opinião isolada, não a interposição de ideias — e que por isso segue no escuro.