Transit

Transit ★★★★½

A vida em fuga e a fuga como forma de sobreviver. Christian Petzold nunca falou tão perto ao coração como em "Transit", um exemplo de como amplificar um material pré-existente pode ser uma bela maneira de torná-lo mais intimista. Ao metabolizar um livro escrito durante a Segunda Guerra, o diretor expande seus limites de tempo e espaço, e também suas reflexões. À medida em que flerta com a distopia, ao trazer o nazismo para os dias de hoje, criando uma sedutora atmosfera de ficção-científica da vida real, o alemão atinge o sublime na arte da narrativa, com uma raríssima simbiose entre o voice over e a ação principal. O texto do narrador promove o casamento das cenas fugindo da literalidade ao mesmo tempo em que dilata as discussões, analisa e interpreta os fatos. Em sua postura de observador atento e silencioso, o narrador assume um papel quase metafísico. Petzold doma todas suas ousadias ao deixar o tom sempre baixo, íntimo e humano, o que faz com que seu rigor estético sempre chame a atenção, mas nunca roube a cena. É um dos filmes mais bem dirigidos dos últimos anos. A fotografia, por si só, usando cores esmaecidas e um azul coral que salta aos olhos em cada quadro, enquadra aquela realidade distorcida, forte e dolorida com uma embalagem delicada. "Transit" trata de tantos temas que é difícil dizer qual é seu principal: é sobre abandonar e ser abandonado; sobre apegar-se, apaixonar-se mesmo, pelo que está mais perto ou pelo que restou; sobre finalmente se permitir abrir-se e ser engolido pela vida; sobre o que carregamos de generoso e de mesquinho; sobre acertar nos desacertos, errar nas certezas e sobre a imprevisibilidade; sobre morrer confortável e sobre aguardar o final feliz. Um filme que não cabe em texto algum.