Promising Young Woman ★★★½

This review may contain spoilers. I can handle the truth.

This review may contain spoilers.

Pra mim, o filme opera em dois registros. No primeiro como uma subversão do subgênero "filmes de vingança", no segundo como uma dramédia sobre os efeitos da presença do abuso na vida de uma mulher. Acredito que ele funciona melhor no primeiro do que no segundo. Gosto de como ele frustra nossas expectativas quanto às convenções das narrativas de vingança, sempre parando um passo antes do que é esperado nesse tipo de filme. Dentro desse primeiro registro, o filme parece mais interessado em investigar o exercício da agência do que da vingança propriamente dia. Não à toa, a protagonista (Cassie) parece ter um controle quase sobrenatural sobre tudo a sua volta, nunca sofrendo consequências muito graves pra suas inúmeras ações absurdas. Pelo menos não até o ato final.
Acredito que a história pode ser lida como uma espécie de fantasia de empoderamento, uma fantasia que imagina uma realidade onde uma mulher pode simplesmente fazer o que ela bem entender. Nesse sentindo, tanto a atmosfera estilizada, recheada de referências à cultura pop recente, quanto as atuações exageradas realçam esse aspecto fantasioso e dão ao filme um ar de exploitation muito empolgante, mas, em alguns momentos, - em especial, quando o filme sai desse registro metalinguístico e entra no seu segundo registro, mais dramático - essas afetações acabam atrapalhando a história como um todo. Por trás do verniz sagaz e irônico, existe uma história absurdamente trágica no centro do filme e é aparente que a diretora/roteirista Emerald Fennel reconhece essa dimensão. O que, no entanto, não a impede de tropeçar aqui e ali na hora de retratá-la.
Vez ou outra, o filme insere cenas, como aquela em que a Cassie se encontra com a mãe da amiga, que procuram lembrar ao espectador o drama que impulsiona a história, o drama sobre os efeitos reais que um episódio de abuso pode acarretar na vida de uma mulher (e nas das pessoas que a cercam e amam) mas na maior parte das vezes essas cenas não funcionam como deveriam e isto ocorre por uma falha na regulação do tom. É evidente que Fennel não possui o mesmo talento para escrever diálogos sentimentais que ela tem para diálogos espirituosos, mas não é só isso, como diretora, ele também não procura delinear essas cenas de forma diferente, diferenciando-as das outras. Ela claramente inclui essas cenas como modo de apontar que seus interesses vão além de uma simples desconstrução de convenções narrativas, mas a execução deixa a desejar. Por isso, cenas que deveriam servir como pontos de ancoragem, como momento de reflexão, acabam soando como desvios desnecessários.
Quando, por exemplo, o pai de Cassie revela ter sentido falta da filha, apesar de ter estado na presença física dela durante todo aquele tempo, aquilo que deveria ser um momento comovente entre pai e filha jamais alcança o impacto almejado. Isso porque o filme não constrói aquela relação de um modo convincente o bastante para nos importarmos (até aquele momento do filme, aliás, os pais de Cassie haviam sido retratados apenas como alívio cômico). Na minha visão, isso é emblemático duma falha estrutural na apresentação do filme que o tempo todo parece nos lembrar de que não é simplesmente um filme exploitation, de que é algo a mais do que um filme de vingança e é justamente nesse “algo a mais” que ele peca.
O que é pena, pois caso o filme tivesse desenvolvido as relações da protagonista com outros personagens (como os pais, a amiga/chefe), a morte dela no terceiro ato teria sido sentida de forma muito mais impactante, especialmente considerando a brutalidade com o qual ela é retratada (uma brutalidade que, vale dizer, está ausente do restante do filme). Por outro lado, caso o filme houvesse optado por excluir essas incursões mais dramáticas e abraçar de vez sua natureza exploitation eu sinto que a última cena (a vingança propriamente dita) teria sido ainda mais satisfatória. Do jeito que tá, o resultado é misto. É difícil não admirar o filme pela sua ousadia ao tentar ilustrar sentimentos complexos e desconstruir narrativas enraizadas, embora as suas ideias sobre essas duas coisas não estejam totalmente articuladas. No final, ele acaba sendo uma experiência divertida e empolgante, ainda que não tão perspicaz ou profunda como anuncia ser.