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A produção mais recente a vencer o Urso de Ouro no Festival de Berlim 2021, por mais que tenha sido produzida, filmada e todo seu entorno ter sido realizado na Romênia, tem um ar internacional e em muitos momentos, um cheiro de Brasil muito forte. Quando o espectador é oriundo de outro país de terceiro mundo, onde uma ditadura do século XX, esteja sendo exaltada, de maneira burra, no século XXI, a identificação vai além daquela que grita com a presença da cultura imperialista e consumista dos países mais ricos, em ambos os cenários, o da ficção e o da vida real, existe uma sensação de conexão na 1 hora e 45 minutos de filme.
    A nova obra do diretor romeno Radu Jude, que foi filmada durante a pandemia, conta a história de uma professora que, ao ter um vídeo de sexo com seu marido exposto na internet, tem que passar por uma espécie de inquisição com os pais de seus alunos, na qual vai ser decidida sobre sua continuidade ou não no cargo.
     Antes de chegar no tribunal escolar em si, é importante ressaltar a divisão narrativa do filme em três atos muito claros. O primeiro vai ser a jornada da protagonista até chegar na reunião. Nessa parte da história, porém, a exploração da cidade e dos espaços urbanos é muito mais importante do que a narrativa em si, de maneira que a personagem se torna somente uma guia para conhecermos a nova realidade vivida no local por conta da covid-19 e todas as peculiaridades não tão somente locais assim. Tais especificidades podem ser percebidas na exploração feita pela câmera fixa que somente segue a personagem, focando em aspectos, como logomarcas estampadas em edificações que possuem, em sua maioria, uma origem norte-americana, como KFC, Coca-Cola, Cinemax, além de cartazes políticos muito característicos de épocas de eleição e edifícios e casas antigas em ruínas. Essa representação imagética feita pelo diretor reforça uma ideia tanto de invasão estrangeira no país, por meio de marcas e produtos, além de um comentário sobre como o espaço urbano é apropriado pela classe política para uma propaganda eleitoreira, mas ao mesmo tempo, negligencia a manutenção do patrimônio arquitetônico, reforçando uma ideia de tentativa de apagamento histórico. 
       Já na segunda parte do filme somos transportados para uma montagem de imagens e vídeos, na qual o autor trabalha assuntos que vão de nacionalismo a sexo, e até mesmo reflexões sobre arte e cinema. Utilizam-se somente imagens de arquivo e texto. Dessa forma o espectador é quase obrigado a esquecer o que foi apresentado antes para que ele possa focar no que está sendo mostrado, ficando preparado para a discussão e os comentários feitos na conclusão do filme. Entretanto, essa pouca variação de padrão narrativo faz com que as discussões muito relevantes passem a ser enfadonhas, além de ser um ato muito longo. Logo, os assuntos trazidos no começo se tornam muito mais relevantes e as reflexões a partir dos mesmos mais impactantes, destaco o trecho que trata sobre cinema.
        O segundo terço é importante para a compreensão do final, pelo fato de que assuntos como a história romena na Segunda Guerra, a ditadura de Nicolae Ceauşescu, a relação do país com o comunismo após a queda do regime são temas centrais nas discussões trazidas na reunião de pais. Diante disso, o filme volta com sua narrativa tradicional quando retorna para a realidade da protagonista ao chegar na reunião. Nessa parte do filme, quando até mesmo a fotografia é mais estilizada, temos um terço final muito disruptivo, quebrando com a direção controlada vista na primeira parte e também com o rigor do texto da segunda. Sendo assim, temos um final muito ousado, no qual todos os tipos de negacionismo e preconceitos são expostos de forma verborrágica e caricata pelos coadjuvantes. Essa exploração fica clara na forma como os personagens se portam e na maneira como os atores declamam seu texto. Exemplo disso é o personagem de um general romeno ultra-conservador que diz absurdos sobre judeus e se nega a usar a máscara para se proteger do coronavírus. Neste ambiente da escola, a hipocrisia em relação ao sexo fica evidente, mostrando ainda mais similaridades com países comandados por líderes que são arautos do retrocesso.