Fall Equinox ★½

O filme que desmascarou o cinema.

Não era a experiência que eu buscava numa sala escura, mas ficar encarando uma tela com imagens tão desinteressantes me perguntando o que eu estava fazendo ali sempre me gera varias reflexões, mesmo diante de algo a principio nada cerebral. E tudo começou quando pensei nos filmes que seguem formato parecido a esse e percebi que a diferença crucial entre os que gosto e não gosto estava no conflito natureza x cidade.

Benning começa cada plano com dados que fazem o troço parecer um video de algum estudo científico fora de contexto. O movimento é muito sutil, num momento do dia onde a luz é bastante homogênea, pouco vento, tudo caminha para o morno, para o monótono. A única quebra seria um som as vezes de um passarinho outras de avião, de motosserra ou algo assim, o som da máquina, da anti-natureza, o som da cultura humana. Logo a “máquina” que sempre teve a carga simbólica mais antagônica a natureza.

Talvez a máxima de ir contra a natureza seja ir contra a morte e de uma forma bastante curiosa a natureza desse filme simboliza a finitude, algo nunca bem digerido por nossas culturas humanas. No passado pessoas que embalsamavam as múmias já negavam a morte no físico, e a chegada da fotografia e do cinema permitiram embalsamar o tempo, obviamente o nosso tempo. E por isso a máquina mais significante nas locações do filme seja a própria câmera.

O cinema que guarda o tempo é a grande negação da finitude, é uma resposta direta ao esgotamento do corpo. O cinema é cultura humana, é a maquina e a celebração de tudo que vem dela e logo de tudo que nos afasta da natureza. O cinema é a personificação da era industrial, não apenas um filho direto dela. Lembrando sempre das primeiras experiências dos Lumiere seja a saída de operários da fábrica ou o trem chegando à estação, a cidade sempre fez parte dos filmes desde o início.

Em “Um homem com uma câmera” Dziga Vertov busca dar um tipo de aula de cinema basicamente estruturando a câmera na cidade, como se ali estivesse não só o habitat natural dela como fonte da matéria prima ideal para o modelo. A vida humana se adaptando se formulando através da máquina.

E é aí que o filme de Benning se mostra tão rebelde. Toda essa paulificante monotonia evidencia não so o cinema como apenas o esgotamento do corpo mas de toda natureza primordial. O cinema é a nossa insatisfação com a natureza ou nossa negação de pertencermos a ela. E nesse sentido o proprio Benning que já declarou que seus filmes não partem de sua própria visão de mundo mas da visão que desejava ter. E aí vem outra face do humano que é um paradoxal desejo de retorno a essa suposta natureza, cada vez mais utópico a partir da chegada da era industrial. Algo que já esta em “Tempos modernos” de Chaplin, onde a conclusão é abandonar a cidade. Mas é nesse fim que Benning começa o seu experimento e se revela um dos cineastas mais violentos que temos hoje. Não só por deixar claro esse conflito com a natureza nos fazendo olhar diretamente pra ela como também desafiando todas nossas configuraçoes industriais de atenção e como se portar ao ver um filme, e talvez por isso ele deve estar no formato de longa metragem (esse formato industrial fundado pelo narrativo, pela ação) que provocou nos espectadores tanto ronco e desconforto nas cadeiras. Um filme que atravessa a tela até o próprio corpo de quem assiste, que grita sem uma palavra.