Bohemian Rhapsody ★★★

Não acho um problema se mudar fatos reais a favor de um filme biográfico, o que eu acho muito discutível é fazer isso a serviço de construir algo do mais genérico, burocrático, formulaico possível.
Disse ao sair do cinema que todo filme desse sempre acaba parecendo um "por toda minha vida" da globo, mas acho injusto pois o programa se preocupava com alguns fatos, curiosidades e depoimentos mesmo nunca ferindo os inofensivos mandamentos do genérico.

A receita é simples, anote aí:

-Personagem sonhador com pinta de fracassado.
-Encontra por acaso um rumo na vida.
-não dá muito certo na começo. (Recomendável uma pitada de "autoridade da indústria esnobando o trabalho")
-mas seu espírito rebelde o faz chegar ao sucesso.
-esse sucesso vem seguido de um mundo de vícios que o leva ao buraco.
-mas ele encontra forças e da a volta por cima no final.
- Não se esqueça de temperar com uma personagem "grande amor" da protagonista.
É simples e fácil, junte toda sua família e se divirta!

O filme do Queen, no intuito de ser apenas isso aí em cima, faz coisas como colocar o rock in rio pra acontecer quase dez anos antes do que foi na realidade, transforma o relacionamento homo de Freddie em uma cilada em direção ao inferno, o faz no fim parecer apenas um cara gay que cantava muito, mas isso até meu gato já sabe. Até nas musicas, o filme em momento nenhum sai do "greatest hits" (como se nem aqueles que nunca foram fãs da banda pudessem descobrir algo com o filme), e para retratar as canções surgindo basta a velha banca de inspirado enquanto o ator finge que anota algo em um papel, as vezes vale uma pausa e uma choradinha bem da forçado mesmo. Como essas cretinices funcionam...
Até para encaixar na receita, o personagem de Fred me parece um tanto inseguro e influenciável demais, algo que o artista verdadeiro jamais me transpassou, na verdade acho que a história ficaria muito mais interessante se ele sempre acreditasse ser uma estrela, sua juventude descobrindo o rock com little Richard, como começou a cantar, algo mais fiel a uma realidade muito mais incrível que uma velha fórmula.
Mas aí o que mais me intriga são essas três estrelinhas que me permiti dar ao filme, é foda pensar o quão incrível poderia ter sido, o que ficou faltando. Mas essa merda é o que é, no fim foi um passatempo inofensivo com o visual bacana imitando uma banda que gosto, e acho que infelizmente o que o grande público realmente quer é isso. As reações ao filme estão muito boas, fico imaginando como teriam sido na versão com o borat lá tocando o terror...

Não me sinto mal por ter me divertido com o filme até mesmo cutucando as referências e erros pro Lucas, (a fala do mike myers sobre jovens batendo cabeças foi massa, po referencia ao "quanto mais idiota melhor" como sou nerd). O foda é pensar em um grupo com tanta história foda tanta loucura um personagem tão interessante virar um filme tão bonitinho e educadinho por causa dos integrantes da banda na produção. Realmente o rock morre a cada dia.